Joe da série You: psicopata ou sociopata?
Cada vez mais, séries que possuem um o viés psicológico estão ganhando destaque e apreço pelo público. Breaking Bad, Bates
Motel e mais recentemente You. A série You, estreou em 26 de Dezembro de 2018
pela plataforma Netflix, mas a sua maior repercussão só veio com o lançamento
da 2º temporada no final de 2019.
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| Imagem oficial da 2º temporada da série You |
Segundo o psicólogo Paulo Bernardes,
especialista em Psicanálise pela Fundação Educacional Araçatuba (FEA) e
Pós-Graduando em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona (UdG)
/ Itaú Cultural, séries com esse tipo de temática despertam um maior interesse
pelos telespectadores pelo fato de comunicarem condições e manifestações do ser
humano. Aspectos estéticos das produções, poder de identificação e o apreço ao
que é desconhecido, também contribuem para esse interesse.
Os padrões psicológicos que aparecem nas
séries, aparentam estar tão distantes do que imaginamos, o que instiga na
tomada de um posicionamento acerca das cenas que nos são reveladas. Como é o
caso do comportamento com tendências psicopatas que o personagem Joe Gutenberg,
interpretado por Penn Badgley, apresenta. Diante das ações de Joe e até mesmo
pela narração em primeira pessoa, somos condicionados a todo momento a adentrar
na perspectiva de como o próprio personagem enxerga a realidade e as pessoas
que o rodeiam.
Qual a diferença entre psicopatia e
sociopatia?
Com toda a certeza, você já deve ter se
perguntado sobre qual a diferença desses dois termos e em qual deles o Joe se
encaixa, não é? De acordo com o psicólogo Paulo "Podemos considerar que a
psicopatia é uma manifestação mais grave que a sociopatia. Para distinguirmos,
observamos no sociopata uma possibilidade de vínculo deste sujeito com as
pessoas do seu convívio, mesmo que este cause sofrimento e faça o necessário
para tirar proveito e satisfazer as suas próprias vontades a qualquer custo; já
o psicopata não se vincula e não tem a menor característica de empatia, não apresentando
o menor remorso ao infringir mal ao outro".
Qual é o perfil psicológico de Joe?
Na série, como podemos perceber, Joe, não mede
esforços para que tudo saia de acordo com o seu desejo, isto é, ele é movido
pelas suas satisfações pessoais, sendo a primeira delas, a Beck. Dado essa
largada, o personagem age impulsivamente, desrespeita completamente a
privacidade alheia, desconsidera a sua própria segurança e a dos outros, comete
crimes em nome de um objetivo maior e comete mais crimes para encobrir os que
já havia cometido. Diante disso, podemos inferir que o prazer dele não está em
matar, mas sim em realizar o seu desejo, o que já descarta a possibilidade dele
ser caracterizado como um serial killer.
Paulo Bernardes, caracteriza o perfil
psicológico de Joe da seguinte maneira:
"Joe apresenta traços de personalidade antissocial, se assimilando à psicopatia pelo grau de manipulação, agressividade e indiferença, em relação a todo o mal que causou na vida daquelas pessoas que cruzaram o seu caminho. Ele percebe facilmente a fragilidade da pessoa e consegue manipulá-la para conquistar o que deseja, que foi o caso da Beck, uma pessoa que apresenta traços de baixa autoestima e fragilidade emocional".
Na 2ª temporada da obra, é fácil se deixar
levar por uma "empatia" que Joe, por vezes, aparenta esboçar. A sua
tentativa de esquecer o que aconteceu com a Candace e com a Beck e ser uma boa
pessoa com a Love, ou até mesmo pela sua preocupação com a Ellie e a irmã
Delilah, nos fazem repensar. Algumas reflexões surgem "Será que ele
realmente está tentando mudar?", " Talvez ele até tenha
empatia..." ou " Vai ver ele está se esforçando de verdade".
Ora, não se engane! O personagem não sente
empatia por ninguém, ele apenas apresentava uma obsessão pelas suas vítimas.
Joe, assim como as pessoas que se enquadram neste padrão, não tem a capacidade
de ter um sentimento amoroso por alguém, visto que eles não sabem o que é isto.
Flashbacks da infância de Joe
Como é mostrado no decorrer do seriado, Joe,
teve uma infância bastante conturbada. Não havia a mínima estrutura familiar,
sua mãe fazia promessas para ele e não cumpria, o largava inúmeras vezes
sozinho, sem contar as brigas que ele presenciava entre ela e os parceiros. Sem
dúvida, era uma ambiente completamente hostil e inapropriado para uma criança.
Por conta disso, é inegável dizer que isso não afetou no seu padrão de
comportamento e na sua personalidade.
Transtornos de personalidade, como o que está
sendo abordado, decorrem de uma série de fatores, sendo a falta de afeto, amor
e cuidado, fatores decisivos. Ambiente, histórico familiar e traumas na
infância estão diretamente relacionados à formação da personalidade de um
indivíduo.
Vale ressaltar, que pessoas que vivem ou
viveram um contexto parecido em sua infância, não irão desenvolver necessariamente
esse tipo de transtorno. Cada caso requer uma análise diferente e cada
indivíduo possui uma maneira subjetiva de responder ao ambiente que está
inserido.

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