A linha tênue entre liberdade e tradicionalismo na moda masculina
Produtor de moda, booker, ator e atualmente diretor
da agência R. Office Models, todos os títulos fazem parte do leque de áreas que
transita Robes Britto.
Robes Britto
Cheguei no hotel para entrevistá-lo e ele estava
finalizando um workshop de atuação juntamente com a dramaturga Eme Barbassa. Me
recebeu com um sorriso no rosto, cumprimentou-me e educadamente me pediu para
esperar um instante até que pudéssemos dar início a entrevista. O coque no
cabelo e o look arrojado que estava vestindo, calça escura, uma camiseta preta
e uma espécie de coturno nos pés, passava a imagem de um homem muito seguro de
si.
Quando fomos para uma sala de reunião, Robes parecia
estar muito satisfeito em me conceder aquela entrevista, esboçava uma forma
muito espontânea em seus gestos e em sua maneira de falar. Iniciei a conversa
perguntando sobre o começo de sua carreira, ele me contou que iniciou sua vida
profissional como ator e logo após como produtor de teatro, a moda apareceu em
sua vida nesse contexto. “Eu sempre falo para as pessoas, na verdade, que eu
sempre gostei de trabalhar com imagens, eu gosto de criar imagens.” afirma ele.
Entusiasmado, Robes completa que a partir daí, trabalhar com moda se tornou
muito fácil, pois se antes criava personagens e espetáculos para uma
determinada peça, como produtor de moda passou a criar imagens para revistas e
editoriais de moda. Tudo tende a ter um viés teatral, “Procuro criar imagens que
causem um efeito, tragam um sentimento, ou até mesmo um impacto.” Robes conclui
que sua inspiração para a constante criação de imagens em seu trabalho, surge a
partir de experiências do seu dia a dia.
Nesse bate-papo, salientando a experiência de Robes
Britto no mundo da moda, quis abordar sobre as tendências masculinas. Contextualizei
a respeito de sempre existir uma inclinação da moda na valorização do corpo
feminino, seja realçando o busto, o quadril ou até mesmo as pernas. Mas quando
se trata do homem, muito raramente enxergamos algo diferente de uma camisa ou
da tradicional calça jeans. Qualquer coisa fora do comum, poderia ser
considerado “Gay” ou extravagante demais. Perguntei para Robes, se em seu ponto
de vista, se o homem tem adquirido mais liberdade ao se vestir ou se ainda está
muito preso ao tradicional. “Acredito que atualmente tem uma liberdade maior,
mas ela é ainda um pouco camuflada.” diz Robes. Segundo ele, os metrossexuais,
que apesar de serem constantemente confundidos com homossexuais, contribuíram
para a questão do homem hétero desenvolver mais autonomia e liberdade na hora
de se vestir. O produtor de moda, ainda
acrescenta que, muitos estilistas LGBTQ estão cada vez mais ousando em suas
criações e involuntariamente os héteros estão usando roupas que foram postas no
mercado por essas pessoas. Baby look’s, roupas com brilho, bordados,
saias masculinas e até mesmo as chamadas roupas minimalistas (sem gênero),
estão sendo mais requisitadas.
Ainda explorando um pouco mais sobre o mundo da moda
masculina, Robes me diz que o processo de seleção para um casting é
muito mais rigoroso para um modelo fashion do que para um comercial.
“Isso é uma questão da indústria mesmo, a moda valoriza o modelo fashion,
digo sobre a visão dos estilistas e das grandes marcas.” Ele me conta que essa
parte é um processo muito criterioso, principalmente em relação as medidas e
finaliza “Isso é uma cultura da moda que vem de décadas e dificilmente irá
mudar.”
Se por um lado, os modelos com corpos esguios e longilíneos
são mais requisitados pelas marcas de alta costura, os modelos com abdômen e
corpos bem definidos são os queridinhos das campanhas publicitárias. Questionei
Robes, sobre perfis de modelos que estão fora do que seria considerado o padrão
para a moda, ou seja, se os modelos plus sise e os street cast
(modelos tatuados, com piercing ou cabelo colorido) têm ganhado mais
notoriedade. “Esses perfis estão se tornando mais visíveis, mas ainda é muito
pouco.” afirma Robes. Ele ainda acrescenta expondo um fato importante “Na
semana de moda de Nova Iorque, que ocorreu na semana passada, tiverem muitas
modelos plus, um enxame de modelos plus e modelos grávidas”. Ele comenta que a
moda tem a tendência de inovar e renovar, para sair da mesmice, mas ainda é
muito limitada, principalmente no Brasil. Existem agências que possuem um ou
dois modelos street cast no casting, porque geralmente são poucos
trabalhos destinados a esse nicho e há agências que não possuem nenhum modelo
nesse perfil. “O mercado para esse tipo de modelo ainda é muito fechado e
restrito comparado ao mercado de modelos comerciais e fashion, ele ainda está
caminhando, mas pode ser que no futuro isso mude.” arremata Robes.
Para finalizar a entrevista, propus algo mais
dinâmico e descontraído, no qual eu citaria um local e Robes me diria qual look
vestiria para determinada ocasião.
Um barzinho com os amigos – Uma coisa mais casual,
mais dia a dia, talvez uma calça jeans e uma camiseta básica, mas sem estampas
porque eu odeio estampas. Eu também poderia colocar um colar.
Um cinema com alguém especial – Eu iria um pouco
mais formal, uma calça jeans, porém na parte de cima com alguma camisa de
botão, algo mais social. Listras de repente, gosto muito de listras.
Um casamento – Olha, o jeans é uma peça básica (rs),
então eu iria com um jeans, só que um tom mais escuro, ou até uma sarja preta
ou cinza. Eu também usaria uma camisa de botão e jogaria um blazer por cima,
mas sem gravata, algo descontraído, mas que remeta a um social.
Um bloquinho de carnaval – Aí eu iria optar por uma
calça mais rasgada, mais desconstruída e uma regata, um boné, algo mais
relaxante.
Uma reunião de trabalho – Eu iria optar por uma
calça alfaiataria ou um jeans, uma camisa de botão, com uma pasta na mão, um
sapato mais social também. A pasta e o sapato seria o principal, porque daria
um ar mais executivo.
Durante toda a entrevista, Robes se mostrou bem
firme em suas respostas, mas no final em especial senti um clima mais
desenvolto e extrovertido de sua parte.

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